Todo mundo (ou quase) já ouviu dizer que lugar de criança é na escola. Se isso é verdade e, se é a escola e a educação que mundam o mundo, como deve ser essa escola? Será que cheia de regras, exigências severas e disciplinante a todo custo?

No livro O Ministério da Saúde Adverte: Brincar faz bem à saúde, o psicanalista e professor de psicologia clínica na Universidade de Coimbra, em Portugal, Eduardo Sá, afirma, entre outras coisas, que o melhor caminho para a aprendizagem é a brincadeira. “…todas as crianças têm direito de brincar. Todos os dias, e não exclusivamente nas férias ou em tempos livres. E a brincar com cada um dos pais, por pelo menos trinta minutos, de segunda a domingo. Para o autor, aprender é brincar.

Com este pensamento, Eduardo nos explica que os momentos de lazer, de diversão e brincadeiras estimulam a aprendizagem e o desenvolvimento. Neste contexto, a escola deve ser um espaço que estimule a curiosidade, que lhes dê espaço para falar, experimentar e questionar.  A escola dos rankings, a escola que confunde a necessidade de relacionar pluralidade e singularidade com uma deriva de exclusividades que vão se sucedendo, sem critério, está morrendo. A escola do futuro tem de ser uma escola humana, onde não haja disciplinas mais ou menos importantes. Uma escola onde haja espaço e tempo para falar, para experimentar e para compreender, onde a esperança da vida não termine aos 18 anos, com a entrada no Ensino superior…”, diz Eduardo Sá.

Abaixo, um trechinho do livro para dar água na boca:

Carta dos Direitos das Crianças para Brincar:

  1. As crianças têm direito de brincar todos os dias; na escola, entre as aulas e ao longo delas (sempre que o professor for capaz de fazer “brincar” rimar com “aprender”); em casa e ao ar livre, sob o olhar discreto dos pais. Brincar só ao fim de semana não é brincar: é colocar uma agenda no lugar do coração.
  1. As crianças têm direito de exigir o brincar como o principal de todos os deveres. As crianças têm direito de defender a primazia de brincar sobre todas as tarefas. A fórmula “Primeiro, os deveres; depois, a diversão”, tão do agrado dos pais, está proibida! Só depois de brincar vem o trabalho.
  1. As crianças têm direito de unir brincar com aprender. Brincar é o “aparelho digestivo” do pensamento: liga o que se sente com aquilo que se aprende. Quem não brinca imita, falseia ou finge. Mas se irrita, sem redenção, com o aprender!
  1. As crianças têm direito de não saber brincar. Brincar é uma sabedoria que nunca se detém; inventa-se, descobre-se ou se desvenda. Brincar é confiar no desconhecido, no que se brinca e com quem se brinca. Crianças sossegadinhas são brinquedos à espera dos pais para brincar”.
  1. As crianças têm direito de descobrir que os melhores brinquedos são os pais. Apesar disso, têm direito de requisitar tudo o que imaginem para brincar. Têm direito de brincar com as almofadas, com caixas de papelão, com os dedos, com o que sirva, enfim, por mais que não sejam objetos para brincar, propriamente. Tudo aquilo que não serve para brincar não presta para descobrir. E, com brinquedos demais, brinca-se de menos”.
  1. As crianças têm direito de desarrumar todos os brinquedos (e de arrumá-los, em seguida, com um toque… pessoal). Têm direito de desmanchar os que forem mais misteriosos, os mais ranzinzas ou até os divertidos. Quando brincam, têm o direito de tocar em tudo, curiosos, cheirando, sentindo, falando, rindo ou chorando. Não há, por isso, brinquedos ruins! A não ser aqueles que servem para afastar as pessoas com quem se pode brincar.
  1. As crianças têm direito de brincar para sempre. A infância nunca morre; apenas adormece. E quem, já crescido, se desencontra do ato de brincar não perceberá, jamais, que não há crianças se não houver brincadeiras.