Eu não quero ter filhos” é uma afirmação perfeitamente normal, certo? Sim, mas ainda assusta muita gente, principalmente se ela vem de uma mulher. Durante séculos, engravidar nunca foi uma questão para as mulheres. Ao nascer, já estava decidido que seriam mães e ponto final. Não havia uma escolha, o ideal romântico de maternidade valia (ou teria que valer) para todas as mulheres.

Nos dias de hoje, a maternidade já não vem mais como uma imposição social, psíquica e biológica. A mulher atual tem liberdade de escolha e nem todas entendem a maternidade como sinônimo de felicidade e realização.

Preconceito e pressão

O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) revelou que, em 2010, 1 em cada 5 casais brasileiros não tinha filhos e 1 em cada 10 mulheres não pretendia engravidar. É um número que só vem crescendo com o passar dos anos. E há alguma coisa de errado nisso? Claro que não. Então por que será que ainda olhamos torto ou encaramos com constrangimento a fala daquela amiga, irmã, parente ou conhecida que diz, com toda naturalidade a que tem direito, que filho não é para ela, não?

“Em momentos históricos não muito distantes, a mulher ocupava o lugar familiar e social de cuidadora da família, da casa e reprodutora. Ela colocava seus desejos e necessidades de potência na procriação, pois a ela não era possibilitado outro destino, lembra a historiadora e psicanalista, Alessandra Mazzota. A maternidade é um tema que mobiliza, em algum grau e momento, toda mulher. “Há uma pressão sociocultural e até mesmo midiática que coloca que a completude da mulher vem juntamente com a transformação dela em se tornar mãe. A mulher que não é e que não será mãe chega a significar um desvio de uma norma social antiquíssima, diferenciando-na da grande maioria, explica Alessandra.

A psicanalista conta que conhece muitos casos de mulheres que vivem situações de sofrimento familiar e social quando declaram sua posição em não ter filhos seja por escolha delas próprias ou por alguma circunstância em que estão inseridas. “Há famílias e núcleos socioculturais em que o papel materno é mais supervalorizado desde a mais tenra idade. Nestes lugares, a pressão para ser mãe é maior e a opção por não ser é mais criticada. Depressão, crises de identidade, culpa, desinvestimento pessoal são sintomas que podem se desenvolver nessas circunstâncias, conta a historiadora.

A estudante Lidiane Mamede viveu uma situação constrangedora no consultório médico. Uma ginecologista uma vez me perguntou quando eu teria filhos. Eu disse que não queria ter filhos e ela me respondeu que eu precisava ver isso direito, pois homem sempre quer ter filhos e, se você não tiver, ele arranja outra mulher. Fiquei chocada porque é um preconceito e, o que é pior, vindo de uma mulher! Muitas mulheres não querem ter filhos, mas têm por pressão da sociedade, como se todas estivessem predestinadas a ser mãe. Não é porque temos um aparelho reprodutor que temos que utilizá-lo com essa função, conta Lidiane.

Importante lembrar que é responsabilidade da sociedade (ou seja, de todos nós) garantir que as mulheres não sejam empurradas para a maternidade por qualquer motivo que seja. O que cabe a nós é ouvir essas mulheres com mais atenção e carinho o mesmo carinho dado àquelas que optaram pela maternidade.

Vamos todos respeitar

O lado sombrio da maternidade (sim, ele existe!) começou a ser apresentado e discutido há alguns anos por mulheres dispostas a enfrentar caras feias e comentários negativos e ajudar a desconstruir a imagem idealizada de mãe e da maternidade como um todo. Nem tudo é glamour e magia no universo maternal e achar que toda mulher deve querer viver o sonho da maternidade chega a ser cruel.

Juntamente com os movimentos feministas crescentes, com o “se apaixonar pelo ser humano e não pelo gênero”, há um grande debate e questionamento sobre ser ou não ser mãe. A psicanalista Alessandra Mazzota conta que há maior esclarecimento das mulheres, inclusive cada vez mais jovens, de que ter filhos não é o que as faz, ou não, mais felizes, mais realizadas, mais “mais”. Inclusive, ao contrário, há a ideia de que filhos limitam potencialidades e desejos que possam surgir, como viajar quando e como quiser, estudar mais e com maior profundidade, ter cargos mais altos e de maior exigência com relação à dedicação do tempo, relações afetivas abertas“No instituto que coordeno, com um grupo de adolescentes e jovens mulheres em que esse tema é recorrente, por enquanto, entre as dez integrantes do grupo, nenhuma delas fala que deseja ser mãe. Ao contrário, o que se debate é como evitar filhos e por que o aborto ainda é visto com tamanho preconceito.

A doutora em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e membro do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Luci Helena Baraldo Mansur, escreveu um livro bastante interessante sobre o tema chamado “Sem filhos: a mulher singular no plural. O livro é resultado de uma pesquisa recente sobre a experiência da não-maternidade e nele Luci afirma que mulheres sem filhos são frequentemente estigmatizadas e, por conta disso, a manutenção dos preconceitos geralmente provoca sentimentos de exclusão e anormalidade. Muitas mulheres podem necessitar de escuta e espaço psíquico, familiar e social para colocar, se for seu desejo, suas opiniões e escolhas, como na verdade, é direito de qualquer ser humano, não é mesmo? E sua decisão deve ser respeitada. Perguntas comuns, mas muito infelizes do tipo: ‘Vocês estão casados há tanto tempo, quando terão um bebê?’, beiram a falta de educação e sensibilidade, lembra Alessandra.

Liberdade de escolha

A paulistana Fernanda Celina, de 36 anos, conta que ama crianças, mas nunca quis parar tudo para ter um filho. “Penso em adotar no tempo certo, mas não me vejo grávida. Resolvi me aceitar, me amar como sou. Nunca quis ter filho para me adaptar ao papel social comumente imposto às mulheres, tenho outra visão. Hoje, encontro várias mulheres que fizeram o mesmo e são super felizes. Respeitar a si mesma e outras mulheres com suas opções deve ser a única regra inquebrável, conta animada.

Vale lembrar que também é uma escolha responder ou se retirar de grupos e conversas em que haja ideias retrógradas e preconceituosas sobre o tema, principalmente quando a vítima, ou seja, o sujeito a ser debatido é você! O mais importante, sem sombra de dúvidas, é o movimento de se autoconhecer e, a partir daí, decidir o que é ideal para você mesma. Uma mulher pode ser muito feliz e realizada sendo mãe e outra se realizar justamente por não ter filhos.

Prezo pela minha liberdade de ir e vir e fazer o que eu quiser no momento que eu desejar. Acho a maternidade linda, curto muito minhas amigas grávidas, mas não me enxergo como mãe 24 horas por dia, 365 dias por ano, pelo resto da minha vida, explica a pedagoga Vanessa Santos.

A maternidade é possível, mas não deve ser exigência para ninguém. E nenhuma mulher perde sua feminilidade ao não ser mãe. “A feminilidade é algo que caminha com ela a partir das primeiras experiências que a mulher vive com outras pessoas. É, portanto, algo bem anterior à opção de ser mãe. Que respeitemos e valorizemos sua escolha para que ela possa ter a liberdade de ser feliz como deseja, finaliza a psicanalista Alessandra Mazzota.

Conheça mais de perto a história de algumas mulheres que escolheram dizer “não” à maternidade:

Etienne Du Jardin, 37 anos, publicitária, casada, vive em Vinhedo – SP
Minhas amigas sempre disseram que se viam como mães, e eu sempre fui o contrário, nunca me vi sendo mãe, exercendo esse papel. Quando criança, minhas bonecas nunca eram minhas filhas eram minhas sobrinhas, primas, afilhadas. Com o passar do tempo e entendimento maior sobre a vida, a vontade de não ter filhos foi ficando mais forte em mim. Acredito que a questão natural do ser humano é procriar, mas nunca tive isso, sempre racionalizei muito. Colocar um ser humano e ter responsabilidade sobre ele é algo que nunca quis. Admito quem opta por ser mãe, mas sou egoísta o suficiente para admitir que não quero na minha vida uma pessoa que seja mais importante do que eu mesma. Sou muito feliz tomando as decisões que são melhores para mim, única e exclusivamente pro meu bem-estar.  Não ser mãe é uma escolha que acarreta problemas para mim. Uma vez perdi um emprego porque disse que não queria ser mãe e a entrevistadora, sem disfarçar, agiu como se eu fosse um monstro. Muita gente acha que o fato de eu não querer ter filhos me condena a não ter determinadas qualidades, como amar, ter empatia, cuidado com as pessoas, ter carinho. Acho uma grande injustiça porque não acho que a maternidade transforma ninguém em super. Ela é papel muito importante para quem tem filhos, mas não faz a mulher pior ou melhor do que outra que não é mãe.  Sou casada há 5 anos com um homem que, pra minha sorte, também não quer ser pai. Ele fez vasectomia há pouco tempo e foi um choque para as pessoas. A maternidade para mim é tão bonita que não significa só o fato da mulher engravidar, gerar um ser humano dentro de você. É mais do que isso. Se um dia eu me arrepender e quiser ser mãe, eu não preciso gerar uma criança para que isso aconteça. Fico triste com as mulheres que não têm empatia e acham que mulheres só podem ser felizes e completas se forem mães. Sou super completa, super feliz e, apesar de não ser mãe, sou filha.

Lidiane Mamede, 35 anos, estudante, casada, vive em Uberlândia – MG.
Nunca quis ter filhos. Desde criança isso sempre foi claro, tanto que nunca gostei de brincar de boneca, de mamãe-filhinha. Com 8 anos tinha uma Barbie que trabalhava fora, era independente. Sou vegana, apaixonada por animais, então os filhos que eu escolhi ter são os meus cães. Meus 5 cachorros são como filhos para mim me preocupo em dar carinho, se estão bem, no melhor para eles. A ideia de ter filhos sempre me atormentou muito por vários motivos. A questão de que estragariao corpo foi a última para mim porque hoje temos vários recursos. Pensar em ter um ser totalmente dependente de mim, que precisaria de mim para tudo, me dá pavor, fobia. Minha natureza é muito livre, não gosto de rotina. Justamente por ser muito responsável não quis ter filhos. Colocar uma vida no mundo implica em dar suporte para tudo, então não quero isso para minha vida. Quero me dar ao luxo num domingo à tarde, por exemplo, poder deitar no sofá, assistir a um filme sem ter uma criança me chamando. Vejo muita gente colocar filho no mundo e jogar nas costas dos avós. Isso me aborrece muito. Meu marido é mais novo que eu e, desde que nos conhecemos, ele falava que sonhava em ser pai. Ele sabia que eu não gostava da ideia de ser mãe, que eu não tinha jeito nem paciência com crianças. Cheguei uma vez a considerar ter um filho por amor a ele, mas toda vez que pensava nisso me sentia angustiada, me gerava muito sofrimento, até o dia em que disse para ele não vou ter. Eu estaria indo contra a minha natureza, contra o que eu desejava para minha vida. Tivemos uma conversa muito franca e ele entendeu. É uma decisão muito pessoal e o mais importante é a minha vida. Não sou obrigada a ter filho para agradar ninguém

Aline Durigan, 31 anos, coordenadora de transmissão de futebol, casada, vive em São Paulo – SP
Como sou .filha de uma mulher solteira, já cresci sem aquela visão romântica do que é ser mãe. Eu conseguia ver quantas noites a minha mãe passava sem dormir para fazer as tarefas de casa, trabalhar fora e ainda cuidar de mim, não só quando eu estava doente, mas fazendo minha comida, me levando à escola, entre outras coisas. Cresci sabendo que eu iria preferir me dedicar à carreira que eu escolhesse, viajar quando eu quisesse e pra onde quisesse a pôr uma criança em um mundo que julgo já estar cheio o suficiente de gente e que não oferece condições de vida decentes às pessoas que nele habitam. Ainda há muita desigualdade social, muito preconceito, muita violência, muita intolerância, inclusive nos países de primeiro mundo. Acho que hoje muitas mulheres decidem ter filhos pra suprir as expectativas de outras pessoas em relação a elas – às vezes da família, dos amigos ou de pessoas que nem são tão próximas. Muitas optam por tê-los a fim de se encaixar nessa sociedade patriarcal que ainda trata a mulher como se ela tivesse sido criada apenas pra procriar e cuidar da casa. É como se a mulher só pudesse ser plenamente feliz quando tivesse filhos o final feliz de todas as novelas e sabemos que isso não é verdade: a maternidade não é um mar de rosas. Já sofri preconceito por essa minha opção de não ter filhos, especialmente por parte de mulheres, ou que trabalhavam comigo, ou da família de algum namorado, mas tenho ainda muitas amigas que pensam como eu: ‘meu corpo, minha escolha.

Ivonete Agliardi, 52 anos, administradora de empresas, casada, vive em Porto Alegre – RS
Venho de uma família de 7 filhos e, ironicamente, poucos têm filhos. Aos 30 anos, conheci meu marido e ele já tinha filhos. Decidi não ter filhos aos 28 e essa ideia foi se avolumando. Eu já sabia que a maternidade não era algo pra mim. Essa ideia se formou porque eu pensava no futuro que daria pra essa criança. Eu não queria as mesmas condições que eu tive e, como meu marido já era pai, não sofri pressão para ser mãe. Mesmo sendo mais fácil para eu tomar essa decisão, fiz terapia para entender se aquela decisão era acertada. Sofri muito preconceito, por incrível que pareça, na hora de buscar emprego. Eu estava desempregada e fui fazer uma entrevista com um psicólogo que me perguntou se eu tinha filhos. Eu disse que não queria ter. Dias depois, fui em outra entrevista e encontrei o mesmo psicólogo que, ao me ver, disse Ah, você é aquela que não quer ter filhos, né?!. Senti que existia uma cobrança com as mulheres que optam por não ser mães. A gente ouve aquelas coisas Você não gosta de criança, é insensível. Muito pelo contrário, adoro crianças, tenho 2 sobrinhos maravilhosos que ficam muito comigo. Tenho quase certeza que não consegui o emprego porque eu não queria ter filhosNuma outra ocasião ouvi de um médico Tenha filhos porque essa decisão não pode vir do teu marido. Eles acham que a decisão de não ter filhos é do marido e não é, é da mulher. A ideia de formar uma pessoa que não sabemos o que vai gerar para humanidade, se será do bem ou não, íntegro ou não, não me agrada. Não me arrependo em nenhum momento de ter tomado essa decisão. Sou muito feliz.