Saber discordar é fundamental. É importante porque nos faz crescer, nos possibilita ouvir e entender outros pontos de vista, nos dá a chance de aprender algo novo, mesmo que seja sobre algo com a qual não concordamos. Até porque, convenhamos, concordar com tudo o tempo todo pode ser chato demais. A psicóloga Daiana Rauber esclarece que não é normal concordar com alguém o tempo todo. “Está tudo bem discordar, é saudável. Sempre ‘vale a pena’ discordar de alguém, isso é um sinal de respeito pelas suas próprias ideias e pela capacidade do outro. Vai deixar de valer a pena a partir do momento em que a discordância não se tratar de algo real, quando você passa a discordar de alguém não pelo que a pessoa está falando, mas porque é ela QUEM está falando”.

Mas e quando o ato de discordar vira briga? Claro que todos nós brigamos – isso faz parte da vida e tudo bem. Para a psicóloga, conseguir discordar de uma pessoa já é um avanço (se você assistir o experimento de Milgram, que está com uma versão no Netflix, vai perceber o quão prejudicial pode ser para uma pessoa e para toda uma sociedade apenas concordar ou seguir regras simplesmente porque é assim, ou porque uma autoridade disse).

“Em tempos em que opiniões políticas ou crenças se tornam discussões simplistas de 8 e 80, saber discutir sem tornar isso uma briga também é útil demais. Não existe só o preto e o branco, existem vários tons de cinza. Não existe só o vilão e o mocinho, todos nós temos aspectos bons e ruins na nossa personalidade e nos nossos comportamentos. Reconhecer isso é fundamental para conseguir avançar nas discussões e nos desenvolvermos. Muitas vezes, o que poderia ser uma discussão saudável que ofereceria novas perspectivas a todos os envolvidos, independente se é na família, com um amigo, ou até a famosa discussão no Facebook, se desenrola para um estado de ânimos que fecha as pessoas”, afirma Daiana.

Como discordar?

Num primeiro momento, a melhor maneira de discordar é de maneira respeitosa e construtiva, claro. Bion, um autor da psicologia, fala muito bem sobre este tema. Ele diz que “amor sem verdade não é mais do que paixão; verdade sem amor não passa de crueldade”. Daiana esclarece que a verdade é o melhor caminho, mas ela não precisa ser cruel para ser revelada. “A comunicação é sempre uma manipulação. Não digo no sentido de manipulação como algo ruim, como estamos acostumados a ver. Mas de manipulação no sentido de preparo, manejo. Sempre estaremos escolhendo a forma com que iremos nos comunicar com as pessoas e o que iremos transmitir com nossa postura, nosso tom de voz, as palavras que escolhemos. Ainda que você não esteja consciente disso, tudo isso está sendo comunicado. Então, vale a pena investir um pouco mais de cuidado na relação com o outro, para que a intenção da verdade que nós estamos apresentando (que nunca será uma verdade universal) seja de respeito, crescimento e construção”.

Isso não significa, ao mesmo tempo, que precisamos ser doces e fofinhos o tempo todo. “Alguns momentos e alguns temas irão exigir uma seriedade e uma firmeza maior, o que não é errado. Outros temas permitem o uso do humor e da sátira, por exemplo, para provocar novas reflexões e apresentar um ponto de vista. Essas ferramentas de linguagem frequentemente nos ajudam a criticar o status quo e também têm seu valor. É preciso usar o bom senso. Não há receita mágica que diga qual o jeito certo de falar, é preciso dosar a autenticidade e a verdade com o respeito”, afirma a psicóloga.

Há vários cuidados que podemos ter para evitar a perda do controle e talvez, uma briga. A maioria deles são hábitos cotidianos de educação emocional e autoconhecimento. Daiana explica que desenvolver a capacidade de separar aquilo que é seu (seus sentimentos, suas ideias, seus valores) daquilo que é do outro, e conseguir estar seguro nessa condição, de saber viver com as diferenças das pessoas, ajuda demais nessas situações. “É algo processual, não é na hora da briga. Assim como trabalhar a ansiedade, lidar com a frustração e se relacionar de uma maneira saudável com as pessoas”.