Uma ideia que não vai pra frente, um amigo que te suga, um trabalho que já não te faz mais felizQuem nunca viveu (e talvez siga vivendo) uma situação assim? É importante saber dizer adeus às coisas e pessoas que roubam seu tempo e sua energia a fim de abrir espaço para novos caminhos estes, sim, mais felizes e realizadores.

A escritora Cherrine Cardoso, autora do livro “A Incrível Arte de Desapegar, explica que há uma forma fácil de desapegar, mas nós normalmente somos resistentes à ela. Trata-se de ouvir o seu coração. “Ele sabe exatamente o momento que você já deveria ter aberto mão de determinada coisa para ficar mais leve e daí, conquistar outras coisas. Mas para ouvir e aceitar o que vem dele, você precisará sair da sua zona de conforto e abrir mão de muitas coisas neste processo, e neste momento vem a razão questionar a emoção. Perguntar se de repente é mesmo isso, ou se vale a pena abrir mão de determinada coisa, se não vale insistir mais, etc.

Sabe aquela intuição quanto a, por exemplo, a rua que você deveria pegar, mas diz a si mesmo: “bobagem, se disseram que é por aqui, vou por aqui”. Daí você cai numa rua sem saída e tem que recuar no trajeto. Com o desapego é mais ou menos assim. “Você sabe a hora de desapegar, mas talvez se sabote por uma série de fatores. E o mais triste é que quando o coração sinalizou a primeira vez e você relutou em ouvir ou em aceitar o que ele te propunha, cedo ou tarde, você terá que desapegar daquilo, seja uma coisa, uma pessoa, um projeto, uma situação. Então minha dica é: ouça o seu coração e vença o medo de mudar. Quando vencemos o medo, as coisas fluem e você percebe que aquilo que deixou ou ficou para trás já não vem a somar no seu momento atual e de certa forma, você estará mais leve e mais feliz, conta Cherrine.

Desapegar é preciso.

Conhece o site “Como Matar Um Projeto? Ele fez tanto sucesso que se desdobrou numa série de vídeos. A iniciativa foi da Contente, um conjunto de ações e ideias que busca fazer da internet um espaço mais humano, acolhedor, autoral e coletivo. As sócias da Contente, a jornalista Daniela Arrais e a publicitária Luiza Voll, contam que “Como Matar Um Projeto” surgiu quando elas perceberam que estavam com vários projetos parados e não sabiam o que fazer com eles. “Alguns tinham deixado de fazer sentido, outros não deslancharam, estavam em um limbo. Começamos, então, a pensar no motivo que tinha nos feito travar, conta Daniela.

“Chegamos em vários motivos: em primeiro lugar, percebemos que estávamos apegadas aos números. O @autoajudadodia, por exemplo, tinha 30.000 seguidores. Era muita gente! E a gente sempre pensa que por trás dos números existem pessoas, sabe? Então como dar adeus a 30.000 pessoas? É difícil, no entanto percebemos que o tipo de conteúdo do projeto não reverberava mais em nós.

Luiza costuma citar a frase: “ações definem prioridades”. “Se nunca colocávamos gás naquele projeto, por que colocaríamos agora? A gente vive uma cultura que enaltece muito o sucesso, a novidade. A gente vê muita gente lançando uma marca, um perfil no Instagram, uma iniciativa. Quase nunca vemos alguém falando coisas do tipo: “deu errado”, “fui à falência”, “deixou de fazer sentido”, “desisti”. E essas coisas acontecem. Diariamente. Não são sinônimos de fracasso, e sim de tentativa, de acerto e erro, de colocar suas ideias no mundo, comenta Daniela.

A jornalista afirma que no Vale do Silício existe uma cultura muito forte de “fail fast, fail better”. “Investidores desconfiam de quem nunca quebrou. Afinal, se uma empresa nunca quebrou, a chance de quebrar quando o investidor resolver colocar grana é grande, né? Ou seja, é o contrário daqui. Enquanto nós varremos pra baixo do tapete os fracassos, na cultura Google/Facebook vale mais lidar de frente com o que deu errado.

Daniela e Luiza conversaram com empresários e empreendedores de sucesso para saber os momentos em que eles fracassaram. Foi curioso porque alguns deles, como o Facundo Guerra, nunca tinham sido questionados sobre o que deu errado. Abaixo, os vídeos que nasceram dessas conversas:

https://www.youtube.com/watch?v=QJvlzbWsg00

https://www.youtube.com/watch?v=-v3kntur5W0

https://www.youtube.com/watch?v=ETbeCmSar8E

https://www.youtube.com/watch?v=ocFyVMBEmvc

https://www.youtube.com/watch?v=35-63pulOG4

Daniela conta que adora praticar o desapego, principalmente depois que leu “A Mágica da Arrumação a arte japonesa de colocar ordem na sua casa e na sua vida, de Marie Kondo, a guru quando o assunto é organização. “Estou sempre tentando tirar umas coisas de casa. Há uns anos eu gostava de acumular mais coisas. Sempre que viajava trazia um monte de revistas na mala. Comprava itens de papelaria, por exemplo. Mas fui me dando conta do desperdício, do quanto a gente é capaz de comprar por impulso. Hoje, eu penso muito antes de comprar. Não tenho nenhum sonho de consumo louco. Ainda falho quando o assunto é livro, confesso. Mas um dia chego lá!, desabafa a jornalista.

O tal do processo

Você tem uma roupa linda, não usa há anos, no entanto não se liberta” dela. Os motivos para isso podem ser vários, entretanto lá no fundo você sabe e tem consciência de que não vai mais usar aquela peça, e que está tendo dificuldade de se distanciar de tudo o que ela te remete: uma forma física, momento feliz, etc.

Cherrine explica que o desapego começa com a aceitação. A forma física pode voltar, mas será que se voltar você não vai adquirir outras coisas para o novo momento e a tal da roupa vai seguir ali no mesmo lugar? Para colocar em prática o desapegar é preciso se fazer perguntas, como: eu ainda preciso disso? O que isso agrega na minha vida? Será que isso não pode servir para outra pessoa? Será que esta relação é como eu gostaria de viver uma relação? Será que ficar com esta pessoa não é apenas comodismo? Será que seguir neste emprego não é apenas por medo de ir atrás de algo que eu desconheço como será?”

Ao fazer perguntas assim, você provavelmente terá todas as respostas porque elas já estarão dentro de você!

Como dizer adeus às pessoas?

A escritora Cherrine Cardoso conta que desapegar de pessoas é extremamente delicado e há duas formas de sentir este desapego. “A primeira eu considero mais dolorosa, mas mais aceitável, que é quando uma pessoa morre. Você tem que aprender a lidar com a ausência de alguém querido, que estava ali até pouco tempo e não mais estará. Ou seja, você não tem a escolha de rever ou visitar. Esta pessoa você só verá de novo nas suas lembranças e memórias. Quando se trata do fim de uma relação, seja ela afetiva ou fraternal ou uma amizade, você sabe que a tal pessoa está viva e de repente não foi sua escolha se distanciar e sim do outro. Daí sim aplicar o desapego pode ser um tremendo exercício, pois você sabe que a pessoa em questão está em algum lugar, próximo ou distante, mas você não pode estar perto, ou porque o outro não quer ou porque há distância física. Quando se trata do fim de uma relação afetiva, muito provavelmente uma das partes vai sofrer mais. Mesmo quando ambos sabem que a relação precisava chegar ao fim, há sempre aquele que cria algum tipo de expectativa que não corresponde com a realidade. Há tristeza? Às vezes sim. Há sofrimento? Apenas se você permitir que o tempo de adaptação com a ausência do outro seja permanente. 

“Todos temos um tempo para entender e aceitar o momento de se despedir de algo ou alguém. Alguns demoram mais tempo, alguns a vida toda, outros menos. Acho que a nova geração, por viver num mundo com as coisas tão descartáveis, tem tido mais facilidade em desapegar, mas ao mesmo tempo, não sabem dar muito valor àquilo que tem. É preciso achar o equilíbrio em tudo. E que desapegar não seja pretexto para magoar o outro ou para tirar algo de alguém, completa Cherrine.