Cansamos de ver e ouvir pessoas que discordam umas das outras e, neste processo, ofendem, agridem, usam termos agressivos, invocam violência, mesmo que apenas verbal. Quem nunca praticou algo assim, certo? Geralmente não nos damos conta que estamos usando de violência quando dizemos “Espero que você sofra o mesmo que eu sofri”, ou “Você é péssimo”. Foi observando e lidando com situações assim nos Estados Unidos, na década de 60, que o psicólogo Marshall Rosenberg desenvolveu um método comunicativo chamado Comunicação Não-Violenta (CNV).

CNV é um processo conhecido por inspirar ação compassiva e solidária. O objetivo é utilizar uma linguagem de necessidades ao invés de julgamentos e, ao mesmo tempo, ouvir com empatia as necessidades dos outros a fim de encontrar soluções pacíficas para as nossas diferenças. A Comunicação Não-Violenta nos mostra não só como nos conectarmos com nossas necessidades, mas também como ouvir o que está por trás daquilo que os outros falam, independentemente da maneira como se expressam. O foco de atenção está nas necessidades humanas.

A facilitadora Janine Oliveira, que trabalha há anos com Comunicação Não-Violenta, realiza grupos de escuta empática em sua casa em Porto Alegre (RS). Ela respondeu algumas perguntas para explicar como entender a CNV e que benefícios este tipo de comunicação traz para a sociedade e os indivíduos.

1) O que é a Comunicação Não-Violenta?

Janine Oliveira: Para mim, é a forma de me relacionar comigo mesma e com os demais. Algo que me convida a me observar primeiramente e ser uma observadora do mundo à minha volta, conectar sentimentos que reverberam destas observações e aprofundar num diálogo interno, que eu consigo partir do meu centro (das minhas necessidades e valores). Por toda esta complexidade já a descobri como uma filosofia de vida, uma forma de ser e estar no mundo.

2) Quem deve/pode praticá-la?

JO: Qualquer pessoa disposta a relações autênticas, onde pode se ser o que se é realmente, dispostos a olhar suas emoções e desvencilhar-se de padrões de linguagem que não colaboraram para esta autenticidade.

3) Quais os benefícios para o indivíduo e para a sociedade?

JO: Individualmente a CNV possibilita autoconhecimento, diálogo interno, acolhimento, aceitação, responsabilização e empoderamento. Coletivamente possibilita relações mais seguras, confiáveis, liberdade e maior facilidade de comunicação e resolução de conflitos a partir da empatia.

4) Como são/funcionam os grupos que você faz?

JO: Os grupos são abertos para qualquer pessoa. Tratam-se de espaços que chamo de laboratório, onde as pessoas experimentam a CNV a partir de escuta, presença e outras dinâmicas. E a partir disto cria-se uma rede de apoio mútuo para que as pessoas consigam se apoiar para as relações que tem fora desta convivência em grupo.

5) Quais os problemas mais comuns que você encontra nos grupos que realiza?

JO: As pessoas que participam dos grupos normalmente procuram uma técnica que resolva sua vida no que tange à relacionamentos, mas a CNV vai além de soluções racionais. Esta técnica ajuda pessoas com dificuldades de escutar o outro por estarem muito voltadas às suas próprias crenças. E pessoas que não estão dispostas a lidar com sua emoções, ou se desfazer de papéis que ocupam nestas relações, por exemplo. Para mim, pessoalmente, a CNV ajuda a conciliar minha vida pessoal, casa, filhos, profissão (sustento) com estes grupos que acontecem na minha casa.

6) CNV comumente é confundida com empatia? Qual a diferença?

JO: Dentro da Comunicação Não-Violenta existe empatia. A empatia é só mais um elemento da CNV. A empatia dentro da CNV é conseguir olhar a partir do que outro vê, conseguindo encontrar este ponto que nos conecta como seres humanos, mesmo que com estratégias (pensamentos, pontos de vista, crenças, formas de lidar com as situações) diferentes.

Quer entender mais e começar a praticar a Comunicação Não-Violenta? Há diversos grupos espalhados pelo país — procure nas redes sociais, fale com amigos e familiares. A transformação para um mundo melhor começa conosco!

 

Fontes:
http://www.pucsp.br/ecopolitica/downloads/cartilhas/2_C_2006_Rede_comunicacao_violencia.pdf
http://www.cnvc.org/
Marshall falando sobre a CNV – https://www.youtube.com/watch?v=AbQTnHirOnw&list=PLA863LmWZSSyBNYbTWtJqlhL1jeQcVqdk