Sustentabilidade tem sido um tema muito discutido, principalmente devido à pandemia do covid-19 e ao esgotamento de recursos que estamos vivendo. Mas o que a alimentação tem a ver com isso? Confira a seguir.

Primeiramente, é preciso entender o que é sustentabilidade, palavra derivada do latim sustentare, que significa sustentar, defender, favorecer, apoiar, conservar e/ou cuidar. Ou seja, é esse cuidado com os recursos naturais utilizados pela humanidade. Quando pensamos nesse tema, muitas ações vêm à mente, como economizar água, energia, reciclar, mas raramente em como a alimentação e o meio ambiente estão totalmente interligados, e como uma alimentação sustentável também é necessária. 

O ato de comer é algo que envolve toda uma cadeia de produção para aquele alimento, que se inicia no campo, ou antes, na preparação de sementes, mudas e insumos, passando pelo plantio, colheita e por muitas etapas até chegar a nossa mesa. Todas essas etapas podem impactar de alguma forma o meio ambiente, seja por meio de recursos elétricos, hídricos, combustíveis, uso de produtos químicos, etc. Para que você entenda melhor essa relação, confira a seguir algumas etapas pelas quais o alimento passa, e como a produção dos alimentos prejudica o meio ambiente. 

O sistema alimentar pode ser definido como uma cadeia de atividades que envolver as seguintes etapas:

PRODUÇÃO: envolve o cultivo de alimentos de origem vegetal e a criação de animais. A criação de animais é um dos fatores que mais emite gases do efeito estufa, principalmente o gado. De acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas), existe uma emissão de forma quase igual à pegada de carbono ocasionada pelos setores de transporte espacial, aéreo e rodoviário juntos. Outro problema, é que grandes áreas verdes são desmatadas para a criação desses animais, o que causa um grande impacto para a biodiversidade. Além disso, para alimentar esses animais, são produzidas rações a partir de, principalmente, monocultura de soja e milho, o que causa, além da queda de biodiversidade, o estímulo à utilização de sementes transgênicas, fertilizantes químicos, agrotóxicos, uso intensivo do solo e um grande impacto ambiental. Tanto o cultivo de alimentos, criação e abatimento dos animais, também são utilizadas água e energia em grande escala.

PROCESSAMENTO: é o processo de transformação dos alimentos em produtos, que podem ser vendidos in natura, como o milho, processados, como o milho em conserva ou ultra processados, como o salgadinho de milho. Todo esse processamento envolve etapas que gastam energia, água, além da possível adição de elementos químicos. Ou seja, um alimento menos processado, possivelmente será mais sustentável. O Guia Alimentar para a População Brasileira recomenda que a nossa alimentação seja majoritariamente de alimentos in natura. 

DISTRIBUIÇÃO: consiste no transporte e armazenamento dos alimentos até um local onde serão comercializados. Aqui o principal ponto é o uso de combustível durante esse transporte, que pode impactar na emissão de gases de efeito estufa. Ou seja, os alimentos produzidos localmente e em regiões próximas irão contribuir menos com a emissão de gases, por isso, devemos dar preferência a eles. 

CONSUMO: é quando esse alimento é enfim adquirido e será consumido e utilizado. Aqui os principais pontos são o aproveitamento integral desse alimento e o descarte correto de resíduos. Os alimentos in natura, utilizam menos embalagens, gerando menos resíduos, outro ponto a favor. No caso dos outros alimentos com embalagens o ideal é o descarte correto e a reciclagem. 

DESPERCÍDIO DE ALIMENTOS: esse é um ponto muito importante e que pode estar presente em todas essas etapas. Segundo dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e a Alimentação (FAO), cerca de um terço dos alimentos produzidos no mundo são desperdiçados em algumas dessas etapas, seja produção, transporte, venda ou após chegar ao consumidor. Esses alimentos poderiam estar alimentando outras pessoas, além disso, existe um enorme prejuízo ambiental, pois, esse alimento passou por toda essa cadeia produtiva, gastou recursos para ser produzido e foi jogado fora. 

De acordo com um relatório do Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), cada brasileiro joga, em média, mais de 40 kg de alimento por ano no lixo. As frutas, hortaliças e tubérculos são os alimentos mais desperdiçados, o que mostra como é necessária a mudança de hábitos. 

Qual a importância da alimentação sustentável?

Por isso, devemos reduzir o desperdício de alimentos, o consumo de alimentos de origem animal, preferir os alimentos in natura, alimentos integrais, produzidos localmente, que valorizem a biodiversidade brasileira e quando formos comprar um produto, optar por empresas que pensam em todas essas causas. 

Precisamos cada vez mais pensar em uma alimentação que seja saudável e sustentável, afinal, água potável, ar limpo e a natureza são essenciais para a saúde. É necessário cuidar desses recursos e adotar essa visão sistêmica da alimentação, considerando além dos nutrientes, todas essas etapas pelas quais os alimentos passam.

REFERENCIAS: 

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