Geração após geração, os pais têm tido um papel mais presente no dia a dia dos filhos. Antes provedores, agora eles dividem com as mães o cuidado e o tempo dedicado às crianças.

Conversamos com a psicanalista e orientadora familiar e educacional Alessandra Mazzotta para entender como o pai pode ser ainda mais presente na vida dos filhos em meio à rotina corrida e tumultuada da maioria das pessoas.

Wickbold: Como saber se sou um bom pai?

Alessandra Mazzotta: Que pergunta interessante! Por muitos anos, a mãe era quem estava em foco quando tratávamos de crianças e de sua criação e/ou educação. Isso está mudando!

Pela minha experiência, noto que há algumas características em pais que têm filhos mais tranquilos e felizes. As principais são: ser atento, dividir as funções com a mãe e ser desprovido de preconceitos. A partir do momento que o pai está atento ao filho, inicia-se um processo de vínculo com ele que, alimentado por amor, respeito e escuta, torna-se uma experiência para toda a vida. O pai é a primeira referência como homem para seu filho ou sua filha.

W: O que define um bom pai nos dias de hoje?

AM: Hoje em dia a figura paterna está cada vez mais demandada. O masculino, em geral mais evidente no pai (mas por vezes presente também na mãe), é a figura que mais claramente dá os limites, diz “não” em algumas situações, e é, portanto, capaz de oferecer à criança o contorno psíquico necessário. Antigamente, a função paterna era acompanhada de um maior distanciamento e até mesmo de agressividade do pai perante o filho, o que trazia mais problemas que soluções. Hoje há mais abertura e a possibilidade de se estabelecer um papel firme, claro, mas também acompanhado de afetos positivos. Resumindo, ser um bom pai é estar presente não só na diversão, mas também nas obrigações simples e complexas do dia a dia, que antes eram de responsabilidade apenas da mãe.  

W: O que significa tempo de qualidade? Você consegue nos dar alguma dica para conquistar este tempo, uma vez que a vida de todos é super corrida e estressante?

AM: Tempo de qualidade é o tempo que os pais decidem dedicar aos filhos de forma honesta. No meu consultório é bastante comum crianças e jovens reclamarem dos pais que, por exemplo, prometem ter um tempo com eles, mas que, durante esse tempo, não tiram os olhos do celular. Nossa vida diária é difícil, mas justificar a ausência ou a falta de troca com os filhos com a necessidade de trabalhar muito para sustentá-los provoca um verdadeiro abismo entre pais e filhos. E, muitas vezes, esse abismo não tem volta. Recomendo que haja conversas claras para se explicar que o tempo é curto, mas que, ao se optar para ficarem juntos, a troca seja real. Algumas dicas:

  • Não prometa o que não pode cumprir. Seja honesto, você é exemplo para seus filhos. Se o tempo que tiver a oferecer é para ler o capitulo de um livro, não prometa mais do que isso.
  • Desligue seu celular, olhe e escute seus filhos com o respeito que eles merecem.
  • Valorize atitudes por mais que elas pareçam pequenas. Pais e filhos irão descobrir encantos e momentos singulares. 

 W: Se um pai simplesmente não consegue este tempo com os filhos, há alguma maneira de compensar essa perda?

AM: Nada substitui a ausência de um pai. A história de que uma mãe é “mãe e pai” é algo muito discutível. De qualquer modo, fazer-se presente de alguma forma ajuda a criança ou o adolescente a se lembrar que é amada por esse pai. Mas cuidado, pois hoje em dia as pessoas, vez por outra, confundem presença com presente. Não é de coisas materiais que estamos tratando. Melhor será um telefonema, um e-mail, uma mensagem de whatsapp, um “eu te amosempre! Seja sincero, ou seja, explique a ausência e justifique com a verdade. Mas lembre-se: é um tempo que não volta mais…